Da biblioteca: Disgrace

É possível, sim, encontrar bons títulos nas bibliotecas públicas de Birmingham, e vamos postar no BrummieBR alguns exemplos. O registro como sócio é gratuito, assim como os empréstimos de livros. 

disgrace

Disgrace, do escritor sul-africano J.M. Coetzee (no Brasil, o livro chama-se Desonra), conta a história do professor de poesia romântica David Lurie, que deixa a universidade após se envolver com uma aluna e vai para o campo ajudar a filha (Lucy) em uma fazenda. Lá, um ataque violento muda a relação entre os dois.

O protagonista – 52 anos, duas vezes divorciado – tem uma relação distorcida com mulheres, a ponto ser difícil gostar do personagem por causa disso. Depois de parar de ver uma prostituta, passa a cercar uma de suas alunas, Melanie.

Ela parece um personagem sem vontade própria, e – da forma como o livro foi (bem) escrito, narrado na terceira pessoa, mas falando mais do ponto de vista do professor – o leitor descobre pouco dela.

O affair se torna público após um incidente controverso. Admirador de Byron, Lurie tem muito a ver com o poeta. Ele cai em desgraça no mundo acadêmico e vai para a fazenda mantida pela filha. O livro assume outro tom a partir daí.

Ajudando Lucy com o canil e se envolvendo com os outros personagens locais, a troca da cidade pelo campo passa a transformar a identidade de Lurie de certa forma. A mudança mais abrupta ocorre após o ataque à fazenda, em que a filha é violentada e ele, queimado. O abuso que Lucy sofre desafia a relação que Lurie tem com as mulheres.

Antes disso, ela – uma jovem branca, bem educada, provavelmente homossexual (o livro não deixa claro para o leitor) – no interior da África do Sul representa um desafio para o que, imagino, seria o padrão local para uma mulher.

E também desafia o leitor: o que motivou a violência? Por que Lucy tem uma reação inesperada ao seu estupro?

Em muitos momentos, quando dizem para Lurie: “você não entende”, o leitor se sente na mesma situação, e fica sem entender mesmo terminando o livro. Ao final, quando volta para a cidade, o personagem está transformado, se comparado ao início da história (não necessariamente para melhor).

Antes de começar a ler Disgrace, não quis supor que o livro necessariamente era sobre a questão do apartheid porque o autor é sul-africano. Exceto por uma cena, não sabemos quais personagens são negros, quais são brancos. Pode ter sido um erro meu, porque depois me disseram que o “dilema branco na África do Sul” constava no livro – não explicitamente. Assim, certas passagens passaram a fazer mais sentido. Talvez aí esteja a genialidade que muitos veem na obra.

Comentamos: se fossemos sul-africanos (éramos dois ingleses, dois espanhóis e uma brasileira), leríamos o livro de outra forma? Tenho certeza que sim.  

Disgrace virou filme, com John Malkovich no papel de David Lurie. Só soube do filme depois da leitura, e a imagem que eu tinha do personagem era a do professor de literatura que se envolve com a Oregon no seriado Fresh Meat (Channel4). Se tivesse conhecido David Lurie na pele de Malkovich, eu teria um pouco mais de simpatia pelo personagem por gostar do ator. Mesmo assim, difícil dizer se gostei ou não do livro.

* * *

Disgrace foi o primeiro livro que li para um book club (meu primeiro encontro com eles foi na quarta-feira passada).

Grupos de leitores são bem comuns por aqui, e confesso que relutava em participar de um. Não queria “perder tempo” com certos livros, enquanto não lia outros da minha longa lista, e não queria ficar restrita a ler/falar sobre um único autor.

Mudei de ideia quando meu amigo Samuel me convidou para este grupo em específico. Muitos dos livros que eles já haviam lido estavam na minha lista, e os autores e os gêneros são variados. No caso de Disgrace, fiquei curiosa porque Coetzee ganhou o Nobel de 2003  (e porque tenho que ler mais ficção contemporânea mesmo). Nosso próximo encontro será  em setembro.

Uma alternativa bacana para quem simplesmente quer papear sobre (quaisquer) livros, sem necessidade de ler um determinado titulo , é o Brum Book Lovers. Adoro a ideia. Fui a dois dos encontros, e é algo bem relax. Minha lista de livros para ler aumenta alguns volumes depois de cada Book Lovers.

AssinaturaBordo

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