Da parte difícil de morar fora

Desde que me mudei definitivamente para a Inglaterra, perdi tios, ex-colegas de trabalho e professores universitários. Soube da morte da maioria deles pelo Facebook. 

Nas primeiras vezes, o pensamento foi: “Bah, estou longe”, quando via conhecidos trocarem informações sobre velório e enterro. Mas admito: sou daquelas que prefere evitar esse tipo de despedida, preferindo ficar com as memórias de bons momentos quando a pessoa estava viva.

Apesar disso, estando no Brasil, eu ainda podia conversar com outros conhecidos sobre a pessoa, relembrar situações engraçadas ou características únicas, admiráveis.

Aqui, não temos conhecidos em comum. Por mais que a gente ao meu redor ofereça um ombro amigo quando me vê triste com alguma perda no Brasil e eu fale sobre a pessoa, começou a cair a ficha: quando vou poder me despedir?

Quem mora em outro país se acostuma a ver pelo Facebook como os filhos dos outros estão crescendo. A mandar e receber “feliz aniversário” pelo Facebook. A curtir as fotos de casamentos para os quais fomos convidados, mas não deu para ir.

Infelizmente, a gente perde muitos momentos em que gostaria de estar presente – e esse é o preço mais alto que um imigrante paga. Mas, para tudo isso, ainda tem como dar um abraço atrasado na próxima viagem ao Brasil. Para a morte, não.

Post confessional não é bem o meu estilo. Mas trouxe esse assunto ao blog, após hesitar um pouco, porque espero que sirva para alguém que esteja passando por situação semelhante.

Na semana passada, mais uma ex-colega faleceu no Brasil. A Maria Lúcia Streck enfrentou o câncer como nunca vi ninguém fazer: com determinação e momentos de diversão, como se zombasse na cara da doença. Embora sempre há momentos sombrios, ela não deixou isso ser a norma. São poucos que conseguem.

A última vez que a vi foi em 2011, pouco antes de ela receber o diagnóstico de câncer. Eu e meu marido estávamos caminhando pela Cidade Baixa, em Porto Alegre, quando a encontramos na rua. Acompanhei sua trajetória depois pelo Facebook, sempre me impressionando com a vitalidade dela.

Entre os últimos desejos da Lúcia, estava sair do hospital e voltar para casa. Tratamento domiciliar é caro, mas quem a conhecia se mobilizou para levantar fundos. Infelizmente, não consegui fazer a transferência a tempo.

logoMinha alternativa foi repassar o valor para o Cancer Research UK, uma organização britânica que levanta fundos para financiar pesquisas de tratamentos contra o câncer.

Foi a primeira vez que fiz uma doação para eles e achei bem simples. Melhor ainda, eles perguntam o que motivou a contribuição e, sendo em homenagem à alguém que morreu devido à doença, pode-se colocar o nome da pessoa.

Isso me deu conforto. Foi a forma que encontrei de me despedir, de homenagear e ainda ajudar quem pode fazer com que pessoas especiais não partam tão cedo.

* P.S. (1): Acabo de ler este post (em inglês) do escritor Neil Gaiman, intitulado Existing In The Pause (Existindo na Pausa), sobre um amigo que está morrendo. Ele escreve (em tradução bem livre, minha): “Não parece tempo real. Normalmente, inspiramos e expiramos, e nunca percebemos o ritmo entre a respiração. Agora mesmo estamos vivendo no lugar entre a inalação e a exalação, existindo na pausa”.

* P.S. (2): Um bom livro que pode servir como apoio é o De Frente para o Sol, do psicoterapeuta Irvin Yalom (mesmo autor de Quando Nietzsche Chorou).

0 thoughts on “Da parte difícil de morar fora

  1. Querida Melissa, parabéns pelo texto. É realmente muito difícil expressar esse sentimento de saudades por aqui, muitas vezes o fazemos sozinhas mesmo. Mas te digo que dessa vida não levamos nada, apenas lembranças, e aprendizados. Eu tenho duas principais frases que são chaves em minha vida, principalmente em momentos em que alguém muito querido deixa esse plano terreno, sao elas: 1) Quem disse que precisamos viver agarrados uns aos outros pela vida inteira? Estamos aqui para aprender com os outros, e ensinar o que sabemos, se a amizade dura 1 semana ou 50 anos, isso é o tempo que leva para que possamos fazer essa troca (aprender/ensinar), 2) Nada nessa vida acontecer por acaso. Se mudamos de país, ou se ficamos sempre no mesmo lugar a vida inteira, é porque é pra ser. Essa mudança ou não, é determinada por nós mesmos antes de vir para cá, e/ou julgamos necessários para um aprendizado muito maior antes de partirmos daqui; Tenha a certeza que as experiências e o aprendizado que você está tendo ao morar no exterior, é necessário e faz valer a pena toda as saudades que deixou pra traz. Dessa vida não levamos nada, e vamos sozinhos, ninguém ai junto conosco. Vamos vive-la intensamente e sensibilizar e ser sensibilizado por aqueles que nos cercam. Um forte abraço Helena

    1. Helena, obrigada pela mensagem! Como respondi pelo Facebook, tens razão: não levamos nada dessa vida. Temos que aproveitar o que vivemos e o aprendizado (que nem sempre é fácil de digerir) de cada momento. Abraços!

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