Hygge: o conceito dinamarquês de viver bem

Hygge vai me ajudar a atravessar esse inverno na Inglaterra.

Tento encontrar distrações para amenizar os dias mais escuros e frios daqui. Já fiz kit inverno kit claridade, comprei caneca que ajuda a colocar tudo em perspectiva

Mas a solução (ou tentativa) deste ano é The Little Book of Hygge: The Danish Way to Live Well, de Meik Wiking (editora Penguin Life) – em tradução livre, O Pequeno Livro de Hygge: O Jeito Dinamarquês de Viver Bem (ainda não lançado no Brasil).

O autor, Meik Wiking,  é diretor do Instituto de Pesquisa sobre Felicidade, baseado em Copenhagen – e hygge tem ligação com os níveis de felicidade da Dinamarca.

Fiz algumas fotos de páginas ilustradas do livro para vocês terem uma ideia melhor desse estilo de vida.

 

Mas o que é hygge?

O termo provém de uma palavra norueguesa que significa “bem-estar”, mas foi apropriada pelos vizinhos dinamarqueses.

Aconchego é a palavra portuguesa mais próxima de uma tradução, mas ela, sozinha, não captura tudo o que o conceito inclui.

Essa página em português do Visit Denmark, site oficial de turismo da Dinamarca, explica:

“Em essência, hygge significa criar uma gostosa atmosfera e curtir as coisas boas da vida com pessoas boas em volta de você. A luz das velas é hygge. Família e amigos – é hygge também. E também não podemos esquecer que comer e beber – especialmente em volta da mesa durante horas discutindo as grandes e pequenas coisas da vida, é hygge!”

A pronúncia, baseada nos fonemas do inglês, seria algo como “hooga“, e a página em português do Brasil do Visit Denmark diz “huuga“. Só um dinamarquês mesmo (ou alguém que morou lá por um tempo) para esclarecer se esse h é mudo, como no português, ou se soa como no inglês! Fiquei em dúvida.

É uma daquelas palavras intraduzíveis, que o próprio livro compara com “cafuné” e outras ao redor do mundo. São palavras difíceis de encontrar um equivalente em outro idioma porque está carregada de significados culturais que nem sempre existem ou tem a mesma importância em outros países.

 

Na prática

Um aspecto básico para os dinamarqueses ao preparar uma atmosfera hygge é a iluminação do ambiente. Nada de lâmpada fluorescente ou luz muito forte.

O segredo está em espalhar luzes mais fracas em diferentes pontos do ambiente (preferencialmente, onde há uma lareira ou um fogão à lenha) e muitas velas.

Existem velas que fazem os estalos da lenha queimando, caso você não tenha uma lareira, mas curte aquele barulhinho.

A decoração escandinava, de linhas mais “limpas”, pode ficar mais aconchegante com elementos naturais, como cerâmica, pelegos, vime, plantas e coisas da floresta.

Almofadas e mantas também ajudam a compor o clima.

Segundo o livro, mais inspiração de décor pode ser vista nos cenários de séries noir dinamarquesas, como The Killing (tem no Netflix) e The Bridge.

Quanto ao guarda-roupa, me parece que o casual é mais amplamente aceito do que na Inglaterra. Esse capítulo do livro é bem curto: cachecóis, camadas (para as diferentes temperaturas ao longo do dia), muita roupa preta e, quando se está em casa, aquelas meias quentinhas.

Mais esforços são dedicados à gastronomia, no entanto. O livro traz receitas de pratos da Dinamarca – doces, que eles adoram, pão, ensopado… Aquelas comidas que apetecem quando está frio.

 

Tour por Copenhagen

Algo que me fez achar o livro de Wiking bem completo foi a inclusão de um roteiro por Copenhagen – ou, como o autor chama, um safári hygge.

Porque, claro, a obra fez a Dinamarca subir várias posições no meu ranking de próximos lugares a visitar! Tem voos diretos de Birmingham a Copenhagen com a Scandinavian Airlines (estimado tempo de voo: 1h45min).

A rota proposta por Wiking começa com Nyhavn (o porto novo da capital, onde foram gravadas cenas do filme A Garota Dinamarquesa).

Segue então para outras partes interessantes da cidade, como Christianshavn (área com canais) e a praça Gråbrødre Torv.

Inclui ainda La Glace, a confeitaria mais antiga da cidade, e o Library Bar. Localizado no Plaza Hotel, o Library Bar tem música ao vivo e, na época de Natal, penduram no teto uma árvore de cabeça para baixo – e Natal é a época mais hyggelig para os dinamarqueses.

Outro capítulo que me fez curtir ainda mais o livro é sobre como hygge está ligado ao alto nível de felicidade medido na Dinamarca.

A população conta com suporte do Estado e pode trabalhar menos horas para ter uma vida confortável, diferentemente do Brasil. Assim, eles têm as condições para ter tempo de qualidade ao lado dos que amam, com bem-estar e aconchego (embora esse seja só um lado da questão – o outro, é assunto para outro post).

 

Hygge gaúcho

Estou evitando o primeiro termo que veio à minha cabeça – “hygge de galpão” -, porque a realidade de quem vive no campo é bem diferente de quem está em Copenhagen. Nada de sistema de aquecimento e uma lareirinha só para dar um clima. O fogo de chão ou o fogão à lenha são a única fonte de calor no inverno gaúcho mesmo!

Apesar das diferenças (abismais) culturais e econômicas, não consegui deixar de pensar em costumes gaúchos ao ler o livro.

Por exemplo, 86% dos dinamarqueses associam hygge com uma bebida quente.

Chimarrão ganha pontos hygge não só porque aquece. É algo que leva tempo, que se divide com amigos e bom-papo. Existe um aspecto de amizade, ou pelo menos tolerância, em uma roda de chimarrão.

Nossos quentão e pinhão se relacionam ao costume de beber gløgg (gloeg, ou, em inglês, mulled wine) e de comer castanhas assadas.

Apesar de o estilo ser relacionado mais com os meses frios, qual a receita de Wiking para hygge no verão? Churrasco.

Parece algo (em parte) que eu pratiquei minha vida toda, mas não tinha uma palavra para isso.

* * *

Lembre-se: conforto não é o único sinônimo de hygge.

Harmonia, curtir o momento presente com quem se gosta e gratidão são elementos desse jeito dinamarquês de se viver.

Tem me inspirado para 2017 e espero que seja inspirador para vocês também!

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