Descobrindo o NHS

* Post originalmente publicado em 29 de fevereiro de 2012, no blog London Me – atualizações marcadas ao longo do texto

Recebi um vídeo de alguns parentes sobre o NHS, o “SUS britânico”. Abaixo, uma das cenas mais impressionantes:

Parece maravilhoso, não? Pois é, parece maravilhoso demais: acho que devemos ser cautelosos. Não digo que é mentira, mas antes de acreditar que tudo funciona na Europa, devemos pensar um pouco no contexto.

Talvez você tenha reconhecido a origem desse vídeo – é um trecho do documentário Sicko, do Michael Moore (que ainda não assisti). O filme foi feito em 2007 – enquanto George W. Bush, um dos alvos preferidos do diretor, estava no poder e antes da recessão na Europa.

Cai muito bem esse médico rico em Londres, trabalhando para o sistema público, para contrastar com a situação nos Estados Unidos – embora eu acredite que médicos sejam bem pagos por aqui, me parece mais uma exceção do que uma regra (se você pode esclarecer isso, por favor deixe um comentário).

Além disso, tem uma entrevista ótima no filme com um ex-integrante do Parlamento, falando sobre a história do NHS. E não se fala em problemas. Talvez porque esse MP era do mesmo partido do primeiro-ministro da época.

* * *

Há prós e contras. O NHS é superior ao nosso SUS e é melhor do que parece ocorrer nos Estados Unidos (para uma recente noção disso, recomendo a reportagem Poor America, que a BBC passou aqui há algumas semanas – se não rolar no link, deve ter no YouTube).

Mas não é perfeito. Tenho a impressão que planos de saúde particulares no Brasil ainda podem ser melhores que o NHS (e, sim, sei que um você paga muito e o outro é de “graça”, ou melhor, é pago com os nossos impostos…). Mas aqui a opção particular é cara, e empresas não fazem planos para seus funcionários. Espera-se que eles usem o sistema público. Ou seja, é o que há.

É fácil pensar que na Europa tudo funciona, e escrevo esse texto justamente para quem pensa isso. O sistema tem enfrentado muitos cortes. Casos de falhas que resultaram em morte aparecem com frequência nos jornais (tipo não pedir um exame que detectasse uma doença a tempo de ser curada).

Mulheres são orientadas a fazer o exame Papanicolau a cada três anos (espero ter entendido isso erradoUPDATE: confirmado aqui).

Uma amiga da minha sogra não conseguiu fazer um exame pelo NHS e procurou um médico particular. O teste realmente acusou o que ela suspeitava, e voltou ao sistema público para receber o tratamento. O médico teria a recusado por ter procurado outro profissional.

Tenho a impressão de ser um tipo de sistema menos preocupado com prevenção. Não fazer exames é uma forma de economizar dinheiro.

Ontem foi lançado um documento para que funcionários tenham mais compaixão pelos doentes mais velhos nos hospitais – entrevistados relataram longo tempo sem comer ou beber e atendimento muito frio. Dizem que há muita burocracia quando o caso é mais sério. E o atendimento odontológico gratuito é limitado.

Um médico brasileiro, ao me citar bons exemplos de sistemas de saúde pelo mundo, citou países da Europa e um inclusive da América Latina, mas, sobre a Inglaterra, disse: “em parte” (lamento que a entrevista tinha um foco muito diferente, não pude pedir detalhes).

* * *

Minha primeira experiência com o SUS britânico, na semana passada, foi positiva – nada muito sério, só precisava identificar e ter uma prescrição para um shampoo especial (UPDATE: passados mais de dois anos, não tive nenhuma experiência negativa até agora).

Na minha temporada 2010/2011, eu não era cadastrada, mas cheguei a ir em um walk-in center: basicamente, um postão que se pode ir sem consulta, nem cadastro com o NHS, em casos não tão graves para se ir a hospitais.

Quando retornei ao Reino Unido, ao escolher a clínica ao qual me cadastrei, procurei no site do SUS britânico uma que tivesse boas recomendações e que se conseguisse consultar em poucos dias (quando liguei, só tinha para daqui a quatro dias úteis – melhor do que os planos de saúde que tive no Brasil). Acostumada a escutar reclamações, tive uma boa impressão. A médica foi bem atenciosa.

Por ser imigrante, ainda não tenho acesso a absolutamente todos os serviços. Terei apenas após um ano de residência na Inglaterra. Então, o jeito é se cuidar. (UPDATE: após um ano de moradia na Inglaterra, passei a ter acesso a todos os serviços). 

O que acho realmente fantástico são os medicamentos subsidiados: nenhum remédio na Inglaterra custa mais de £ 7.40 (menos de R$ 25) UPDATE: £8.05 (cerca de R$ 32), de forma universal; na Escócia, ouvi dizer que é 100% subsidiado (a confirmar).

Devido a quantidade de estrangeiros no país, o sistema ainda oferece intérpretes para consultas. Isso tudo é muito bom, mas não é infalível e está cada vez mais ameaçado pelos cortes devido a essa recessão que não finda.

0 thoughts on “Descobrindo o NHS

  1. Eu já tive a infelicidade de passar por um GP.. Achei péssimo mas sei que isso está relacionado ao lugar onde moro e ao practice que me inscrevi. É gratuito mas nao valeu nem a viagem.. Aqui foram só 2 dias e logo que cheguei fui atendida. Um médico que mal olha na sua cara em um consultório caindo aos pedaços. Os meus problemas não foram resolvidos mas também não eram urgentes. Por outro lado, o meu marido teve uma emergência e fomos para o hospital de Birmingham (Queen Elizabeth não me lembro bem o nome) e o atendimento e as instalações foram realmente EXCELENTES!

    1. É, Claudia, acho que depende muito do lugar que se frequenta e dos médicos. No entanto, conheço pessoas de uma clínica (que não é a que frequento!) que realmente se esforçam para sempre ajudar o paciente. E tem pacientes que, olha, acham que tem que ter tratamento de rei e são grosseiros com quem trabalha lá.

      Na clínica que me registrei por último, li comentários que falavam horrores do pessoal da recepção, mas que diziam que os médicos eram bons. Ninguém estende tapete vermelho, hehe, acho difícil falar com a clínica para marcar uma consulta, mas nunca fui mal-tratada. Os médicos e enfermeiras foram bons quando precisei. Embora nunca tenha tido nada grave, até agora, tive a sensação de estar sendo “cuidada”, embora às vezes falte a simpatia brasileira no momento em que estamos mais vulneráveis.

  2. Bom, Melissa, eu, particularmente nao tenho nada a dizer contra o nosso NHS. sempre fui bem tratada e ainda sou por aqui. E meu esposo que teve derrame foi imediatamente socorrido, logo do meu chamado ao servio de emergencia e reverteram o estado dele brilhantemente. Mas, tenho amigos da regiao que ja nao estao la muito felizes. Como, ja comentaram acima, depende muito da regiao. Eu estou satisfeita. Agora a questao odontologia e um horror, em casos de urgencia foi em um particular e depois durante minhas ferias ao meu dentista brasileiro no Brasil.

    1. Josie, conheço outras pessoas que seguem indo ao dentista no Brasil… Quando minha mãe veio me visitar, teve uma emergência odontológica, e o dentista me pareceu competente – mas ela tinha pago seguro-saúde antes de embarcar, o que cobriu os gastos. Se fosse particular, teríamos gastado umas boas libras… :-/

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