Turismo de aventura na Trilha do Rio do Boi

praiagrandesc (640x433)No segundo dia de caminhadas da viagem,  pegamos o carro rumo à Santa Catarina para a Trilha do Rio do Boi.

No município de Praia Grande, fica a entrada do Parque Nacional dos Aparados da Serra pela qual se acessa o rio que corta o fundo dos paredões do Itaimbezinho.

Do interior do cânion, tem-se uma visão da grandiosidade do lugar de outro ângulo.

 

A estrada

Deixando o Cambará do Sul (onde estávamos hospedados) para trás, são 18 quilômetros de estrada de terra até a entrada do parque depois de dobrar à direita na Estrada do Itaimbezinho (RS-427), segundo o site oficial.

Quando fomos, havia máquinas e obras em partes do caminho entre Cambará e Praia Grande.

 

Começando a Trilha do Rio do Boi

Visitar o interior do cânion não é fácil como acessar as outras trilhas da região, como a do Fortaleza ou do Itaimbezinho.

Precisa-se de guia para a Trilha do Rio do Boi. E ele explica que agora não é mais turismo ecológico, como as outras caminhadas da região, mas turismo de aventura.

O horário de entrada nesta parte dos Aparados é das 8h às 13h somente. Isso porque o percurso dura cerca de seis horas (ida e volta), e todos os visitantes devem deixar a área antes do horário de fechamento do parque. Não é permitido acampar no local e só se pode entrar mediante apresentação de documento. Há maior controle nesta entrada do parque.

O calçado que me recomendaram usar foi tênis. Uma amiga mais experiente em trilhas, depois de termos ido ao Brasil, me disse que eu deveria ter procurado um calçado mais apropriado. Fica a dica para a próxima.

Antes de iniciarmos o percurso, vestimos caneleiras, e o guia conta ainda com um kit de primeiros-socorros. Além disso, água, comida e filtro solar é tudo o que se precisa levar.

Início da Trilha do Rio do Boi, Praia Grande (SC) - Foto: Melissa Becker
Início da Trilha do Rio do Boi – Fotos: Melissa Becker

A primeira parte da Trilha do Rio do Boi ocorre por dentro da mata atlântica. É a fase fácil do trajeto – embora eu pedi para pararmos por alguns minutos na ida para recuperar o fôlego. Minha resistência é baixa, e dentro da mata é abafado.

No entanto, deve-se manter um certo ritmo se o objetivo é chegar ao ponto chamado Cruz, “onde se avista uma curva formada pelas fendas do cânion”, segundo descrição da agência. Parar muitas vezes pelo caminho não é indicado, para dar tempo de voltar e sair do parque antes do fechamento.

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Além da beleza natural do local, também avistamos resquícios dos antigos moradores (como a peça de moinho, creio eu, na foto acima), retirados da área quando o parque nacional foi oficializado.

 

Travessia de rio

Ao chegar às margens do Rio do Boi,  o tipo de terreno e o grau de dificuldade mudam. O início ainda não é tão puxado, e aquelas borboletas azuis enormes encantam e deixam o esforço para segundo plano.

Borboleta azul na Trilha do Rio do Boi, Praia Grande (SC) - Foto: Melissa Becker
Difícil de fotografar borboletas, porque a mata é escura e elas voam muito rápido

Logo adiante, se alcança um dos locais mais bonitos da Trilha do Rio do Boi – e de todas as minhas férias no Brasil desta vez: a Cachoeira Leite Moça.

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Durante um intervalo: muita água e algumas fotos

Embora mais fresquinho, meu problema passou a ser me coordenar para caminhar pelas pedras. Existe uma técnica que o guia explica, mas quem disse que meu cérebro assimila rápido um pé em cada pedra e pisada dependendo do tamanho e do ângulo da pedra?

O guia me emprestou o cajado dele. Houve momentos em que foi crucial para me ajudar a ter equilíbrio, mas, em outros, acho que me distraiu mais (ou eu precisava de mais treino / prática para saber o que fazer com ele nesses momentos).

Trilha do Rio do Boi, Praia Grande (SC) - Foto: Melissa Becker
Caminhando às marges do Rio do Boi

Ao total, atravessa-se o rio 20 vezes (caminhando, com água no máximo pela cintura e correnteza não muito forte).

Os aventureiros devem dar as mãos e atravessar o rio caminhando de lado para ter mais estabilidade. Há quem sinta tontura se olhar para baixo, então, a dica é olhar para frente e ir experimentando com cuidado com o pé onde pisar.

Foi em uma travessia, de mãos dadas com o guia e com o meu marido, que visualizei os dois paredões, um de cada lado. E a gente no meio do rio. Lindo. Mas impossível de tirar foto e até mesmo de chamar a atenção deles, porque tínhamos que manter o foco na travessia do rio por segurança. Só ficou na memória.

Isso era uma coisa que eu não sabia antes de começar a Trilha do Rio do Boi: só se vê dois paredões ao mesmo tempo no final.

 

A volta

Ao chegarmos à Cachoeira do Braço Forte, tive que tomar uma decisão: continuar ou começar a volta?

Eu havia torcido meu tornozelo direito, de leve. O problema é que, ao caminhar nas pedras angulosas, eu continuava forçando o pé. Doía mais e eu estava começando a cansar, não deixando os músculos da perna tão fortes/contraídos a cada pisada.

Faltavam quatro travessias difíceis de rio (total, ida e volta). As pedras, nesta parte da trilha, passam a ser maiores.

Talvez eu até conseguisse chegar ao final, forçando o pé. Mas e as três horas de caminhada de volta?

Cachoeira do Braço Forte na Trilha do Rio do Boi, Praia Grande (SC) - Foto: Melissa Becker
Cachoeira do Braço Forte

Por segurança, resolvi não arriscar, mesmo com o guia tendo enfaixado o meu pé. E eu sou cabeça dura: ter que abrir mão de apenas 800 metros (mas 800 metros desafiadores) me irrita profundamente, mas foi a decisão mais prudente.

Como iniciamos o retorno mais cedo, fomos em um ritmo mais lento. Aí até dentro da mata estava agradável.

O único animal que vimos na Trilha do Rio do Boi – fora aranhas e borboletas – foi uma jararaca em uma pedra, bem ao lado do caminho aberto na mata. Ao contrário da papa-pinto que encontramos no Cânion Fortaleza, essa é venenosa. O olho treinado do guia percebeu a tempo de passarmos com cuidado ao lado dela.

De volta à casa dos guardas, usamos mangueiras para tirar o barro dos calçados, tivemos companhia de cachorrinhos e trocamos de roupa antes de pegar a estrada.

Trilha do Rio do Boi, Praia Grande (SC) - Foto: Melissa Becker
Companhia enquanto limpávamos nossos tênis

Das três trilhas que fizemos na região dos Campos de Cima da Serra, essa foi a mais difícil (para uma principiante como eu!). O único preparo que fiz foi começar a ir à academia, duas ou três vezes por semana, dois meses antes.

Fiz uma foto do mapa na entrada do parque, onde dá para ver a localização de Praia Grande em relação ao Itaimbezinho, que visitamos no dia seguinte (a “bola” mais em cima aponta para o Itaimbezinho, enquanto a do meio mostra a Trilha do Rio do Boi):

Trilha do Rio do Boi, Praia Grande (SC) - Foto: Melissa Becker

No retorno, já próximo à Cambará, mais uma lição do microclima do local: névoa fechando a visão na estrada às seis da tarde! E um pôr-do-sol encantador nas proximidades do hotel para encerrar o dia.

Pôr-do-sol de volta à Cambará do Sul

 

Que boi é esse?

A história é triste. De acordo com Jussara Reis da Silva no livro A Magia e o Encantamento dos Cânions de Cambará do Sul, o Rio do Boi tem esse nome por causa do gado que pastava tranquilamento no topo dos cânions… Mas, sem perceber a margem do precipício pela cerração ou pela escuridão, acabavam despencando no rio.

Hoje, ainda há gado em certas partes dos parques nacionais, enquanto há disputa entre gerações de famílias de proprietários e as delimitações das áreas federais.

 

Fiz o pacote de viagem – que incluiu a Trilha do Rio do Boi com transfer e guia – com meu amigo Thiago Copetti, operador da Poltrona 1 Turismo, com o apoio da agência local Cânion Turismo.

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