Foto: K2 Space / Creative Commons

“Choque” trabalhista

Não sou especialista (é sempre bom lembrar), mas resolvi compartilhar alguns aspectos da minha experiência como trabalhadora na Inglaterra, em comparação ao Brasil.

Cada país tem suas vantagens e desvantagens, não vou chegar a conclusões definitivas neste post.

Apesar de morar na Inglaterra há mais de quatro anos, minha experiência como empregada aqui é bem menor, já que fui, por metade deste tempo, autônoma em período integral – o que também tem grandes diferenças, mas isso é papo para outro post.

*** Atenção, atenção – pediram para eu reforçar e é o que eu estou fazendo: esse post é apenas a MINHA experiência, o que vivi no Brasil e o que tenho vivido aqui até agora. NÃO é uma tradução da lei, tampouco o que vale para todos os trabalhadores. Não quer dizer que você vai chegar na Inglaterra e vai ser assim. Muita gente tem experiências bem diferentes e vale ler os comentários desse post para ver outros exemplos.

Abaixo, minhas percepções e experiências nos dois países:

 

Trabalho temporário

No Brasil: Deusulivre não ter um emprego fixo.

Na Inglaterra: Temps não são necessários apenas no Natal, mas durante o ano todo – para cobrir um periodo mais longo de doença, ter alguém rapidamente na saída de algum funcionário (enquanto se faz entrevistas para selecionar um novo) ou simplesmente para atender uma demanda maior de trabalho. Tem-se quase os mesmos direitos que um funcionário contratado, com férias pagas proporcionais ao contrato de trabalho. Se o contrato é de um mês, o temporário vai ter um dia e meio de folga (sim, pago), mas falta por motivos de saúde será descontada, por exemplo. É uma alternativa para não ficar parado enquanto se procura por algo fixo ou para quem não quer compromisso de longo prazo.

 

Meio período

No Brasil: Deusulivre não ter um emprego em período integral.

Na Inglaterra: Meio período pode ser um estilo de vida (para quem pode). Há quem trabalhe apenas três dias por semana (por escolha), por exemplo, ou quem faça apenas quatro horas diárias. Opção bem popular entre mães que querem mais tempo para cuidar dos filhos, mas não podem ou não querem deixar de trabalhar.

 

Horas

No Brasil: Contrato de 40 horas por semana, oito horas diárias (sendo sete horas de trabalho e uma hora de almoço).

Na Inglaterra: Contrato de 37 horas semanais, sete horas e meia de trabalho de segundas a quintas-feiras e sete horas às sextas (uma hora de almoço a parte, não pago).

 

Férias

No Brasil: 30 dias por ano.

Na Inglaterra: 25 dias por ano. Na prática, é mais do que no Brasil, porque são 25 dias úteis por ano (logo, cinco semanas). Não precisa esperar completar um ano de contrato para se ter direito a férias – é proporcional ao período trabalhado.

 

Feriados

No Brasil: O país tem nove dias de feriados nacionais, mais Carnaval e Corpus Christi (que são facultativos), feriados estaduais e municipais e aqueles dias enforcados entre fim-de-semana e feriado. Pela natureza do que eu fazia, eu trabalhava na maioria deles.

Na Inglaterra: O país tem oito bank holidays, quase sempre às segundas-feiras (logo, raramente tem feriadão), e não existe feriado regional ou municipal. Agora, folgo em todos.

 

Reunião de trabalho

No Brasil: Muitas vezes, a reunião na prática começa 15 minutos depois do horário marcado (ou mais, porque se fica discutindo o Brasileirão e o Big Brother enquanto os atrasados não chegam) e não tem hora para acabar.

Na Inglaterra: Cinco minutos de tolerância, e a hora para acabar (bem clara e definida para os participantes) é respeitada.

 

Celular

No Brasil: onde trabalhei, não havia restrições ao uso do celular pessoal (porque, em muitos casos, era usado para trabalho também).

Na Inglaterra: em um dos locais em que trabalhei, era necessário pedir permissão para atender ao celular pessoal.

 

Falta por doença

No Brasil: Tem que ter atestado médico.

Na Inglaterra: Não precisa de atestado – só precisei ligar avisando que não iria por estar doente e depois preenchi um formulário.

 

Convênio de saúde

No Brasil: Um emprego que oferece convênio será favorecido por um que não tenha essa vantagem, no ponto de vista de um trabalhador brasileiro.

Na Inglaterra: Não tem, em geral. Espera-se que você use o sistema público de saúde britânico, o NHS. O máximo que vi foi seguro-saúde que funcionários de uma certa empresa podem ter com desconto. Funciona assim: você paga mensalmente ao seguro e se gastar £100 em um tratamento, por exemplo, você pode pedir o dinheiro de volta (talvez você não vai receber tudo, mas a maior parte).

 

Licença-maternidade

No Brasil: De quatro a seis meses.

Na Inglaterra: De duas semanas a um ano.

 

Carteira de trabalho

No Brasil: Você precisa apresentá-lo ao começar em um novo emprego.

Na Inglaterra: Não existe.

 

Décimo-terceiro

No Brasil: É lei.

Na Inglaterra: Não é lei, então, são poucas empresas que oferecem essa vantagem ao funcionário, que eu saiba. Não sei de ninguém, entre meus amigos, que trabalhe em uma.

 

Presente de final de ano da firma

No Brasil: Eu costumava receber um chester e um lombinho em uma bolsa térmica para garantir a ceia nataliana e o Réveillon (no meu primeiro ano, teve até duas garrafas de vinho – tinto e branco).

Na Inglaterra: Nunca ganhei nada de empresa, mas já participei de almoço natalino para funcionários.

 

Aposentadoria

No Brasil: Hoje, existem diferentes modalidades de aposentadoria. Se for por idade, o trabalhador urbano deve ter 65 anos (homem) ou 60 anos (mulher). Já o segurado especial (lavrador, pescador artesanal, indígena etc), deve estar com 60 anos (homem) ou 55 anos (mulher). Se for por tempo de contribuição, homens de qualquer idade podem se aposentar desde que comprovem pagamentos por pelo menos 35 anos a Previdência Social. No caso das mulheres, a exigência mínima é de 30 anos de contribuição.

Na Inglaterra: Atualmente, a idade mínima para aposentadoria é de 65 anos para homens e 60 para mulheres. Não existe aposentadoria por tempo de serviço.

No momento, Brasil e Reino Unido não têm acordo relacionado à aposentadoria – isso significa que o tempo de serviço de um trabalhador no Reino Unido não é levado em conta se ele decidir se aposentar no Brasil, no meu entendimento (se eu estiver errada, por favor, deixe um comentário, esclarecendo esse ponto). Informações sobre outros países estão disponíveis neste link do Ministério da Previdência Social.

Como trabalhador no Reino Unido, quais
diferenças você nota? Deixe um comentário!

 

(Foto no topo deste post: K2 Space / Creative Commons)

0 thoughts on ““Choque” trabalhista

  1. Melissa, endosso em tudo que escreveu, sem tirar nem por. Excelente artigo. So, salientando que quando trabalhei de faxina muitos anos, ganhei muitos presentes, assim acomo em especie. Mas, como autonoma acabou a moleza. kkkk. bjs

    1. Ok, para não dizer que nunca recebi nada de presente de empresa aqui, ganhei um brinco em sorteio da minha empresa anterior e materiais promocionais da atual (caneta, bloquinho etc). De natal, nada. Beijos.

  2. Oi Melissa, apesar de ter contrato permanente de trabalho, sendo professora, estou no esquema “zero hora” mas nunca fiquei sem trabalho. Desde que comecei nessa instituicao, trabalho o mesmo numero de horas todos os dias. Agora, todo final de ano, nosso empregador nos oferece um jantar muito farto de Natal com direito a booze e ainda levamos pra casa uma garrafa de vinho. Agora, ser professora tem suas vantages: os alunos sempre nos dao presentes, e sao todos coisas muito boas: perfumes Gucci, bolsas, chocolate, echarpes, canetas etc XD

    1. Oi, Claudia. Que bom que tu nunca ficaste sem trabalho, esse esquema zero hora soa assustador. Meu marido é professor também, e acho bonito que os alunoa deem presentes no final do ano letivo – compensa a falta de um Dia do Professor!

  3. Melissa, muito bom o seu post, há tempos venho procurando algo esclarecedor como esse post. Só uma correção: no Brasil, o horário de almoço não está incluso nas 40 horas semanais, ou seja, você fica nove horas no ambiente de trabalho. Além disso, existem empresas (como a que eu trabalhava por exemplo) cuja carga de trabalho era de 44 horas, podendo ser trabalhadas quatro horas aos sábados ou distribuindo 48 minutos de segunda a sexta.

    1. Oi, Ana! Obrigada! Meu contrato no Brasil era assim como expliquei no post, após uma mudança que houve (teve sindicato envolvido etc). Mas obrigada por acrescentar essa informação.

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