Porção individual

Acha estranho que, nos pubs ingleses, a porção de batata-frita é individual, ao invés daquelas grandes porções que a gente costuma dividir no happy hour no Brasil?

Ou que sua amiga britânica faça uma curta viagem de trem para visitar a família só a cada três meses, enquanto você conversa com sua mãe todos os dias por Skype por horas?

Essa é apenas uma das muitas diferenças culturais entre o Brasil e o Reino Unido – e, claro, um dos choques pelos quais passamos quando nos mudamos para cá.

Enquanto os brasileiros valorizam mais estar em família, em um grupo de amigos, na cultura britânica, prevalece a autonomia, a independência.

A gente pode ver esses traços em diferentes situações quando passa a morar aqui. Apesar disso, há ocasiões em que a gente esquece que as diferenças existem e fica surpreso pela forma de como as outras pessoas agem.

 

Individual x coletivo

Voltei a pensar no assunto esses dias, lendo um livro que não é sobre o tema, mas que toca nele.

O capítulo 5 de Webs of Influence – The Psychology of Online Persuasion (Redes de Influência – A Psicologia da Persuação Online, em tradução livre), de Nathalie Nahai, trata sobre seis diferentes dimensões psicológicas culturais, que influenciam e identificam as preferências e traços de uma cultura, de acordo com estudo do professor holandês Geert Hofstede (você pode ler um pouco sobre esse trabalho neste post do Portal Gestão, em português).

Uma dessas “dimensões” é o individualismo versus coletivismo.

 

Você no Brasil

Países com baixo índice de individualismo, como Brasil e China, preferem conexões sociais maiores e mais coesas, nas quais a necessidade do grupo está a frente das individuais.

Nesses locais, as preferências e os comportamentos individuais são altamente influenciados pelas opiniões de familiares, amigos, colegas e grupos sociais. A não conformidade a essas regras tácitas pode resultar em rejeição.

Hofstede, em seu site, diz que o score do Brasil no ranking significa que, no país, as crianças são integradas desde o nascimento em um grupo forte e coeso (especialmente representado pela família, incluindo tios, avós e primos), que continua a proteger seus integrantes em troca de lealdade.

Esse aspecto aparece ainda no ambiente de trabalho. Empregadores tendem a oferecer a empregados um alto nível de proteção em troca de lealdade e relações são frequentemente no centro das contratações (isso inclui nepotismo).

Outra observação certeira do site é que o estilo de se comunicar é rico em contexto e, por isso, “as pessoas irão seguidamente falar de forma profusa e escrever de maneira elaborada”.

 

Aí, você chega no Reino Unido…

De acordo com o perfil de Hofstede para o Reino Unido, o país está entre os mais individualistas, atrás apenas de dois países colonizados… por britânicos: Estados Unidos e Austrália.

Além de altamente individualista, os britânicos são reservados. As crianças são ensinadas desde pequenas a pensar por elas mesmas (já vi isso várias vezes no trem, no parque, visitando um museu) e a encontrar seu propósito na vida e de que forma elas podem contribuir à sociedade.

Segundo o livro, culturas como a do Reino Unido apreciam autonomia e esperam que as pessoas cuidem de si mesmas. Responsabilidade na sociedade se estende apenas a amigos e familares mais próximos, e não é raro que as pessoas se mudem para outras regiões.

Por exemplo, é comum ver jovens indo a universidades em outras partes da Inglaterra, mesmo que Birmingham tenha cinco instituições de ensino superior.

As pessoas dão valor a liberdade, tempo e desafios pessoais e são propensas a serem motivadas por fatores externos, como o bônus anual ou um salário maior. Também tendem a valorizar mais veracidade e ciência do que uma noção de moralidade.

O site de Hofstede ainda menciona que um fenômeno bastante discutido tem sido o aumento do consumismo e o reforço da “‘ME’ culture” (a “cultura do eu”, em tradução livre).

Se você não tinha ideia deste aspecto da cultura britânica, talvez tenha deixado passar a pista que deve ter aparecido na sua primeira aula de inglês: é a única língua que usa a palavra “eu” (“I”) em letra maiúscula.

Segundo o ranking do professor, culturas nacionais podem ser divididas nos seguintes grupos em relação ao individualismo x coletivismo
  • Países altamente individualistas: Estados Unidos (91), Austrália (90), Reino Unido (89)
  • Países moderadamente individualistas: Áustria (55), Israel (54), Espanha (51)
  • Países coletivistas: Índia (48), Brasil (38), Portugal (27)
  • País altamente coletivista: China (20)

 

A comparação entre Brasil e Reino Unido quanto às dimensões culturais
comparisonbraziluk
Fonte: site de Geert Hofstede – https://geert-hofstede.com/brazil.html

As dimensões culturais propostas por Geert Hofstede são: distância ao poder, individualismo, masculinidade, evitar a incerteza, orientação a longo prazo e indulgência (no gráfico acima, da esquerda para a direita).

 

E você, também sente essa diferença
cultural com os britânicos?

2 comentários em “Porção individual

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *